A série Dois Irmãos, adaptação do romance homônimo (2000, Prêmio Jabuti em 2001) de Milton Hatoum pelas mãos de Maria Camargo, apresenta-se como mais uma produção de altíssima qualidade de uma obra literária vertida para as telas da televisão. Sabemos que não é tarefa fácil transmutar a linguagem da literatura com suas peculiaridades múltiplas para outro veículo tão diferente e ao alcance do grande público, todavia considero que toda a produção cumpriu muito bem sua empreitada (a série já estava pronta há algum tempo, esperando hora oportuna para exibição).
Em
sua primeira semana tivemos grandes momentos dramáticos de profunda reflexão
sobre os melindres das relações familiares sob uma iluminação difusa que nos
convida a olhar com mais vagar para aquela casa e seus mistérios. Aliás, destaque-se
como um dos pontos altos o belíssimo poema Liquidação
de Drummond (Boitempo, 1968) usado
como epígrafe na abertura da série:
A casa foi vendida com todas as lembranças
Todos os móveis todos os pesadelos
Todos os pecados cometidos ou em via de cometer
A casa
foi vendida com seu bater de portas
Com seu vento encanado sua vista do mundo
Seus imponderáveis
Por vinte, vinte contos.
O
tema do poema dialoga diretamente com um dos assuntos discutidos no livro e bem
recortados pela adaptação: A casa como portadora de memórias, espaço guardião
de bens intangíveis e sua herança imponderável. A direção de Luiz Fernando
Carvalho (como já disse antes sobre Velho
Chico) é inconfundível, ele possui uma assinatura autoral que confere
tintas rebuscadas e sensíveis em seus trabalhos, optando por soluções
narrativas sofisticadas e respeitando bastante o texto original. A narração simultânea
em três tempos através da voz de Nael (Irandhir
Santos nos conduzindo brilhantemente), o filho da casa na fala resignada de
Halim (sabemos a razão ou a repudiamos), confere à trama um tom de segredo
sussurrado que nos faz lembrar o ditado popular que as paredes têm ouvidos, ou olhos...
A
narrativa se insere na tradição do tema bíblico da rivalidade fraterna presente
em Abel e Caim e Esaú e Jacó, páginas já divinamente reescritas por Saramago (Caim), Machado de Assis (Esaú e Jacó) e Hélder Macedo (Pedro e Paula). Hatoum atualiza o assunto e coloca os gêmeos numa família
de libaneses que migraram para Manaus em um contexto histórico que cobre
momentos emblemáticos do Brasil no século XX. A razão da intriga entre os
irmãos se dá desde o nascimento, quando Zana faz sua escolha por Omar, por
considerá-lo mais frágil. Seu caçula cresce sob sua proteção desmedida (Édipo forte)
para desespero do pai, do seu outro gêmeo, Yakub, que teve que contar com o
colo servil de Domingas (aula sobre nossa colonização) e da irmã caçula de
fato, quase invisível na casa. Na cena do parto, a alegoria do vaso se quebrando (o
duplo partido) indica essa instabilidade ou rompimento da unidade que Omar traria
para aquela casa. Eles eram muito diferentes em tudo, mas a mãe sempre
reafirmava que eram um mesmo corpo...Já o pai sempre soube...
Não
importa o que de bom Yakub fizesse, o caçula queria sempre lhe roubar o
protagonismo (ou primogenitura) à força. Vários outros sinais colaboram com
essa ideia, o pássaro rasga-mortalha, o rolar da escada a baixo, a posição fetal, o pesadelo do pai, a falta de comunicação, o ódio
do professor, e por fim a mais forte, a disputa por Lívia, desencadeadora da
cena crucial da trama, a razão da cicatriz que acabou por separar de vez os
dois irmãos.
Em
linhas gerais a série é digna de elogios, a representação das famílias árabes,
a mistura de culturas, os closes bem fechados, o amor-eros de Halim e Zana, o figurino, os cenários, os
atores (Mateus Abreu, interpretando os gêmeos adolescentes é uma grata
revelação e o Michel Melamed, parece talhado para o Professor Laval e seus
poemas malditos ), as técnicas cinematográficas, os diálogos do "avô com o neto" no curso do rio, retardar de algumas ações
simulando o vai e vem das memórias ( ver
a lição machadiana no capítulo LXXI de Memórias Póstumas) e a inserção de
cartuchos históricos entremeados na ficção, dentre outros elementos, fazem da narrativa um deleite,
mas não um deleite fácil, é preciso atenção e concentração para os detalhes
insuspeitáveis daquela casa...
E
quem não leu o livro ainda, recomendo que o faça com urgência, é um dos melhores
romances da Literatura brasileira, tive a sorte de conhecê-lo nas aulas
fascinantes de Teoria da narrativa no Doutorado na UFBA, sob a regência de minha orientadora
Mirella Márcia Longo Vieira Lima que, assim como Nael, nos soprou que aqueles
segredos valiam a pena e agora valem a tela...Continuemos olhando aquela casa,
muitas emoções ainda nos esberam, brimos!
Alana, estava aguardando seu texto!! Estou gostando da série, e amei mais ainda as telas que você descortinou para nós nesse belo texto!
ResponderExcluirObrigada! E eu sempre esperando sua leitura atenta!E a de Dona Claudia também!
ExcluirSublime. Grata pelo deleite da leitura.
ResponderExcluirObrigada, livro e série deleitosos!
ExcluirPalmas !!! Vibrei !
ResponderExcluirLivro e série dignos de muitas palmas!
ExcluirComo sempre a senhora nos presenteia com sua perspectiva repleta de intertextos e reflexões! Parabéns pelas belas palavras que para mim foram também um deleite!
ResponderExcluirAndreia
Obrigada, continuemos atentos!
ExcluirOh! Não assisti,
ResponderExcluirAceito a recomendação.
Parabéns, pró!
Ainda em exibição...e o livro é imperdível! Obrigada pela visita!
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